Após as apaixonantes 24 Horas de Le Mans de 1967, a Comissão Desportiva Internacional colocou novamente meio mundo contra si ao anunciar o regulamento do Campeonato do Mundo de Marcas para 1968, os Protótipos (Grupo 6) passam a estar limitados a três litros de cilindrada e a cinco litros para os Sport produzidos num mínimo de cinquenta exemplares (Grupo 4). Uma decisão que foi na época claramente criticada por organizadores e construtores. A Ferrari anunciou desde logo a sua decisão de não construir nenhum Grupo 6 ou 4 para 1968.
Esta decisão e a impossibilidade dai decorrente, dos P4 e 412P poderem competir no Mundial de Marcas, abriu a possibilidade destes serem preparados para as provas CanAm, passando da configuração Grupo 6 para 7.
Os Sport de cilindrada ilimitada rejeitados pelo anexo J da CDI em 1965 tiveram desde 1966 a possibilidade de continuar a competir na América do Norte no então instituído "Canadian American Challenge Cup", mais conhecido por CanAm.
Os automóveis participantes neste Campeonato baseavam-se normalmente na seguinte "receita": um motor americano de alta cilindrada (o V8 Chevrolet Traco de 5,9 litros, por exemplo), um châssi ultraleve, normalmente de fabrico inglês, o que significava um conjunto de cerca de 700 Kg de peso e 500 CV de potência.
Depois de disputar as 24 Horas de Le Mans de 1967, o 412P #0844 da NART foi enviado para Modena, (em Setembro) onde, através da NART-Canadá, os pilotos Chris Amon e Jonathan Williams procederam a alguns testes no Autódromo de Modena, onde este Ferrari surgiu numa configuração improvisada de Grupo 7, tendo -se estreado na CanAm, a 17 de Setembro de 1967 em Bridgehampton (2ª prova do Campeonato desse ano).
Posteriormente, o mesmo destino aconteceu a dois dos fantásticos P4 com que a Ferrari alinhou e venceu no Campeonato do Mundo de Marcas de 1967.
Tratou-se dos châssi #0858 e #0860, que para além do #0856, foram os únicos destes modelos que são originais P4, o #0846 foi convertido a partir de um P3.
Em Maranello, os dois P4 foram convertidos para Grupo 7, sendo o aligeiramento do peso o primeiro objectivo, a carroçaria conservou a base do P4, embora tenham suprimido os faróis, o spoiler traseiro foi mais trabalhado aerodinâmicamente e foram colocadas duas entradas de ar para o motor. Este viu a sua cilindrada ser aumentada para 4,2 litros (4176cc), a taxa de compressão passou de 10,5 para 11:1, tendo a potência máxima sido aumentada em cerca de trinta cavalos, para os 480 às 8500 rpm.
O peso de 750 Kg ainda era demasiado face à concorrência, que dispunha de automóveis feitos especificamente para este campeonato.
Os dois 350 CanAm vermelhos e decorados com uma lista longitudinal branca, vermelha e azul, foram expedidos para os Estados Unidos da América, onde Bill Harrah, o célebre coleccionador e concessionário Ferrari para o oeste desse país, foi o responsável pelo envolvimento na competição.
Chris Amon e Jonathan Williams estrearam estes Ferrari na 4ª prova do Campeonato de 1967, disputado a 16 de Outubro em Laguna Seca. Amon terminou a corrida no 5º lugar e Williams no 8º, este equipado ainda, ao que se julga, pelo motor de 4 litros. Mauro Forghieri esteve presente na estreia, acompanhando nas boxes o evoluir dos dois automóveis. Até ao fim do Campeonato estes dois automóveis efectuaram as restantes provas, tendo posteriormente seguido destinos diferentes, o #0860 prosseguiu na CanAm, onde em 1968 Pedro Rodriguez efectuou mais duas provas, tendo nesta altura este 350 terminado o seu percurso  desportivo, ao passo que o #0858 continuou uma mais preenchida carreira.


#0858


 Na sua versão 330 P4 (carroçaria fechada) , este automóvel iniciou a sua carreira desportiva nos 1000 Km de Monza a 25 de Abril de 1967, inscrito pela Scuderia Ferrari e com os pilotos Mike Parkes e Ludovico Scarfiotti, que terminaram a corrida no 2º lugar da geral. Nos 1000 Km de SPA, concluiu a prova no 5º lugar da geral, e as 24 Horas de Le Mans no 2º posto (1º classe), sempre com a mesma equipa de pilotos.
Ainda em 1967 (30 de Julho), este Ferrari viu ser transformada a sua carroçaria fechada numa versão aberta, numa configuração com que alinhou nos 500 Km de Brands-Hatch, através da equipa de pilotos Jonathan Williams e Paul Hawkins, tendo terminado a prova no 6º lugar da geral.
Após esta última corrida do campeonato do Mundo de Marcas de 1967, este Ferrari foi convertido na versão 350 de Grupo 7 para alinhar no Campeonato Canam (inscrito por William Fisk Harrah), tendo feito a sua primeira prova no Grande Prémio de Monterey em Laguna Seca (16 de Outubro), onde Jonathan Williams terminou a corrida no 8º lugar. Ao que se julga, este #0858 alinhou nesta prova ainda com o motor de 4 litros (a partir da ante penúltima prova disputada em Riverside, a 29 de Outubro, passou a dispôr do motor de 4,2 litros).
Williams utilizou este 350 em mais duas corridas do Campeonato CanAm de 1967, em Riverside (29 de Outubro) e Las Vegas (12 de Novembro). Posteriormente, já em 1968 foi vendido a David MacKay (Scuderia Veloce), que pagou à Ferrari 30.000 dólares (que incluiu diversas peças sobressalentes) e que o inscreveu em Surfers Paradise (1 de Setembro) onde foi pilotado por Chris Amon e pelo próprio MacKay, para além de outras provas de suporte às Tasman Series, onde o pilotou também em equipa com Bill Brown.
Foi então que em Outubro do mesmo ano, Paul Hawkins o adquiriu e o fez alinhar em diversas corridas sob as cores da equipa Gunston de John Love, a maior parte delas no continente africano, entre as quais as 3 Horas de Lourenço Marques. Em 1969 ainda efectuou duas provas na Europa, em Magny-Cours e Dijon, ambas com Mike Hailwood ao volante.
Em meados de 1969 foi adquirido por David Piper, que fez alinhar Alistair Walker, em equipa com Robin Widdows, nas Springbook Series desse ano, entre as quais, a 30 de Novembro as 3 Horas de Lourenço Marques, onde curiosamente obteve a mesma classificação que Hawkins no ano anterior, o 2º lugar, e onde o 350 CanAm surgiu de cor vermelha.
Desta forma terminou o percurso desportivo do 350 #0858.


1968

3 Horas de Lourenço Marques
8 de Dezembro
Paul Hawkins (nº3)
2º lugar na Corrida
(Fotos gentilmente cedidas por António CVS)


1969

3 Horas de Lourenço Marques
30 de Novembro
Alistair Walker/Robin Widdows (nº6)
Treinos: 1ºs (1'.15'',200)
Corrida: 2ºs(133 voltas)
 1º Grupo 7/Classe F
(Na foto o 350 surge na terceira posição, nesta altura já com cor vermelha)
(Foto gentilmente cedida por António CVS)

Esta foto refere-se às 3 Horas da Cidade do Cabo disputadas a 21 de Novembro de 1969 (uma semana antes da prova de Lourenço Marques), e mostra a cor vermelha com que este Ferrari voltou a ser pintado.